George Orwell se livrou desse lixo, “Big Bosta Brasil”

Toda vez que se anuncia uma nova versão do BBB ou programas similares, penso que o escritor George Orwell deve se revirar no túmulo diante do seu notável livro 1984 ser usado como fonte de “inspiração” para “mixórdias inqualificáveis” como é o “Big Brother Brasil”.

Pergunto-me, entre outros questionamentos, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça (o cara é bom), cobriu a queda do muro de Berlim, foi correspondente internacional, submete-se a apresentar um programa de tão baixo nível?

A ironia é que lixos culturais como o BBB se prestam à tarefa de manter na ignorância milhões de pessoas que poderiam usar o tempo que perdem assistindo ao saco de bostas do programa, lendo um bom livro como o 1984 que continua atualíssimo, apesar de ter sido publicado em 1949 quando o mundo assistia à Guerra Fria e a escalada nuclear.

A sistematização da luta pelo poder, a forma de mantê-lo oprimindo e deixando o povo na ignorância é descrito de forma clara e contundente. Impressiona a semelhança do processo político do passado com o que ocorre, hoje, no Brasil, quando grupos partidos deixam suas ideologias de lado e mostram-se dispostos a firmar qualquer tipo de aliança se isso significar alcançar o poder.

Um dos trechos mais marcantes de 1984 é quando o personagem Winston lê trechos de um livro proibido pelo regime daquela sociedade totalitária em que vive. É o “Teoria e prática do coletivismo oligárquico” escrito pelo inimigo número 1, o dissidente Emmanuel Goldstein. A forma didática usada para falar da luta de classe é a seguinte: Ele constata que ao longo da história da Humanidade, sempre existiram três tipos de pessoas no mundo: “as Altas, as Médias e as Baixas” que se subdividiram de várias maneiras e tem variado em diversas épocas, “mas a estrutura primordial da sociedade jamais foi alterada”.

Assinala que os objetivos desses três grupos são inconciliáveis: “o objetivo dos Altos é continuar onde estão.

O objetivo dos Médios é trocar de lugar com os Altos. O objetivo dos Baixos, isso quando tem um objetivo, pois uma das características marcantes dos Baixos é o fato de estarem tão oprimidos pela trabalheira que só a intervalos, mantém alguma consciência de toda e qualquer coisa externa a seu cotidiano, é abolir todas as diferenças e criar uma sociedade na qual todos os homens sejam iguais”.

Nesse quadro, um conflito básico se repete ao longo da história, diz Goldstein: “durante longos períodos os Altos parecem ocupar o poder de forma absolutamente inabalável, porém mais cedo ou mais tarde sempre chega o dia em que eles perdem ou a confiança em si mesmos ou a capacidade de governar com eficiência, ou as duas coisas. São derrubados pelos Médios, que angariam o apoio dos Baixos fingindo lutar por liberdade e justiça”.

Contudo, “nem bem atingem seu objetivo, os Médios empurram os Baixos de volta para sua posição subalterna, a fim de se tornarem eles próprios os Altos. Nesse momento um novo grupo de Médios se desprende de um dos dois outros grupos, ou de ambos, e o conflito recomeça. Dos três grupos apenas os Baixos jamais conseguem, nem temporariamente, sucesso na conquista de seus objetivos” Assim, “do ponto de vista dos Baixos, nenhuma mudança histórica chegou a significar muito mais que uma alternativa no nome dos seus senhores”.

Lembra também que, no passado, os Médios que lutavam por poder haviam feito revoluções sob a bandeira da igualdade, para depois instalar uma nova tirania assim que a anterior era derrubada.

Sobre a necessidade de os donos do poder manter a desigualdade social como forma de preservar a sociedade hierárquica, explica que “se lazer e segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser embrutecida pela pobreza, se alfabetizaria e aprenderia a pensar por si. Depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde essa massa se daria conta de que a minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela”. A conclusão é óbvia. “Uma sociedade hierárquica só era possível num mundo de pobreza e ignorância”.

Pelo que assistimos nos dias de hoje, 1984 poderia ser adotado nas escolas como tratado de cidadania. Mas há risco de os pobres se alfabetizarem e aprendessem a pensar por si…

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